Como este tema funciona na sua empresa
O gestor geralmente é também o dono ou o único responsável pela área — a entrevista tende a misturar o que o cargo faz com o que a empresa inteira precisa. O RH precisa ajudar o gestor a separar função de expectativa de negócio.
Gestores têm equipes maiores e mais diferenciadas, mas raramente param para pensar no cargo de forma analítica. O desafio é extrair distinções entre níveis (analista júnior vs. pleno vs. sênior) que o gestor trata como óbvias mas não consegue verbalizar facilmente.
A entrevista pode envolver múltiplos gestores para o mesmo cargo em áreas diferentes, com risco de inconsistência. O protocolo precisa ser mais estruturado e a validação cruzada entre gestores é parte do processo.
A entrevista com o gestor para análise de cargo é o método mais eficaz de coleta de informações para construção ou revisão de descrições de cargo — mais confiável que questionário isolado e mais aprofundado que observação. Ela permite explorar nuances, distinguir o cargo da pessoa que o ocupa atualmente e identificar responsabilidades reais versus aspiracionais. Como referência consolidada na literatura de análise de cargos, a combinação de entrevista estruturada com questionário prévio é o método de maior acuracidade para a maioria dos contextos organizacionais.[1]
Por que a entrevista supera o questionário isolado
O questionário é eficiente para coletar informações de muitos cargos ao mesmo tempo — mas tem um problema estrutural: quem responde tende a descrever o que acha que deveria responder, não o que o cargo realmente faz. Gestores preenchem campos como "missão do cargo" com declarações aspiracionais; colaboradores listam tarefas que consideram mais valorizadas, não as mais frequentes.
A entrevista permite ao RH explorar em tempo real — perguntar "o que você quis dizer com isso?", "quanto do tempo a pessoa passa fazendo isso?" e "o que acontece se essa responsabilidade não for executada?". É a diferença entre um dado declarado e um dado validado.
Além disso, a entrevista cria contexto que o questionário não captura: a tensão entre áreas que afeta o escopo real do cargo, as responsabilidades que o gestor herdou de outra área sem formalizar, as tarefas que a pessoa atual faz mas que não são parte da função — e que o próximo ocupante não precisará fazer.
Como referência de mercado em metodologia de análise de cargos, a entrevista semiestruturada combinada com questionário prévio é o padrão recomendado para organizações que buscam acuracidade.[1]
Preparação antes da entrevista
Chegar à entrevista sem preparação desperdiça o tempo do gestor e produz descrições genéricas. A preparação mínima envolve três fontes:
- Descrição de cargo existente (se houver): identificar o que está documentado, o que parece desatualizado e as lacunas mais evidentes. A entrevista começa confirmando o que existe antes de explorar o que falta.
- CBO (Classificação Brasileira de Ocupações): consultar a família ocupacional do cargo para entender o escopo esperado e a nomenclatura oficial. O site do Ministério do Trabalho e Emprego lista as atividades típicas de cada ocupação — serve como referência para verificar se o cargo está subdimensionado ou superdimensionado em relação ao mercado.[2]
- Organograma da área: entender a estrutura da equipe do gestor — quem o cargo reporta, quem reporta a ele, cargos adjacentes. Ajuda a posicionar o cargo na hierarquia e identificar fronteiras de responsabilidade.
- Vagas anteriores para o mesmo cargo (se disponíveis): o que foi anunciado nas últimas contratações. Não é necessariamente o que o cargo é — mas oferece ponto de comparação.
O envio de um questionário prévio ao gestor — com 5 a 8 perguntas básicas sobre o cargo — é uma prática que aumenta a qualidade da entrevista: o gestor chega com os elementos básicos já organizados, e a conversa pode focar no aprofundamento em vez de na coleta inicial.
Como apresentar o objetivo da entrevista ao gestor
A abertura da entrevista define o tom de toda a conversa. Gestores que entendem o propósito colaboram melhor; gestores que se sentem avaliados ou ameaçados tendem a descrever o cargo ideal em vez do cargo real.
A apresentação mais eficaz é direta e sem exageros:
- Explicar que o objetivo é entender como o cargo funciona na prática — não avaliar o gestor nem o colaborador atual.
- Deixar claro que não há resposta certa ou errada — o RH está aprendendo com o gestor, não testando seu conhecimento.
- Informar que a descrição resultante será validada com o gestor antes de ser finalizada — o gestor não está "entregando" um documento fechado, mas contribuindo com um rascunho.
- Estimar o tempo: 45 a 60 minutos é suficiente para a maioria dos cargos. Respeitar esse limite constrói credibilidade para entrevistas futuras.
Roteiro estruturado: as perguntas em sequência
O roteiro a seguir está organizado em três fases — abertura, aprofundamento e verificação. A sequência importa: perguntas de abertura constroem contexto, perguntas de aprofundamento extraem o conteúdo central, e perguntas de verificação filtram o que é real do que é aspiracional.
Fase 1 — Abertura: contexto e posicionamento
- "Me descreve em linhas gerais o que essa posição faz dentro da sua equipe — qual é o principal papel dela?"
- "A quem essa posição se reporta e quem, se houver, se reporta a ela?"
- "O que essa posição entrega que, se não fosse entregue, afetaria mais diretamente o resultado da sua área?"
Fase 2 — Aprofundamento: responsabilidades e requisitos
- "Quais são as três a cinco principais responsabilidades dessa posição — o que ela faz no dia a dia com mais frequência ou maior impacto?"
- "Existe alguma responsabilidade que parece secundária mas que, se não fosse feita, causaria problema sério?"
- "O que essa pessoa precisa saber fazer para ser bem-sucedida nesse cargo — quais são as habilidades técnicas inegociáveis?"
- "Você contrataria alguém sem experiência prévia nessa área? Por que sim ou por que não?"
- "Qual é a formação mínima que você aceitaria — e qual seria um diferencial real, não apenas desejável?"
Fase 3 — Verificação: distinguir cargo de pessoa e real de aspiracional
- "Pensando na pessoa que ocupa esse cargo hoje: tem alguma coisa que ela faz muito bem e que você gostaria que fosse parte do cargo — mas que na prática o próximo ocupante poderia não ter?"
- "Tem alguma responsabilidade que apareceu na nossa conversa e que seria mais do que você esperaria do cargo em condições normais — seria um bônus, não um requisito?"
- "Se você fosse contratar alguém amanhã para esse cargo, qual seria o critério mais importante para passar ou reprovar na entrevista?"
Essas três perguntas finais são as mais importantes para filtrar o que é função do que é pessoa, e o que é requisito real do que é desejo de gestor. São frequentemente as que mais revelam — e as que mais gestores demoram para responder.
A técnica central: distinguir o cargo da pessoa que o ocupa
A armadilha mais frequente na entrevista é o gestor descrever o ocupante atual em vez do cargo. Isso acontece naturalmente — o gestor pensa no cargo através da lente de quem está nele hoje. A função do RH é redirecionar sistematicamente.
Sinais de que o gestor está descrevendo a pessoa, não o cargo:
- Usa o nome da pessoa: "a Mariana faz isso muito bem" — em vez de "essa função exige".
- Usa atributos de personalidade como requisitos: "precisa ser muito proativo" — em vez de descrever a responsabilidade que exige iniciativa.
- Lista responsabilidades que surgiram porque "a pessoa atual tinha esse conhecimento" — não porque o cargo precisa daquilo.
A técnica de redirecionamento mais eficaz é uma única pergunta, usada sempre que o gestor desliza para a pessoa: "Se a [Nome] saísse amanhã e você contratasse uma pessoa diferente — mas igualmente competente —, essa responsabilidade ainda estaria no cargo?"
Essa pergunta força o gestor a separar função de ocupante — e frequentemente revela que algumas "responsabilidades" são extensões da história pessoal do colaborador, não requisitos estruturais do cargo.
Como identificar responsabilidades reais vs. aspiracionais
Gestores tendem a descrever o cargo que gostariam de ter, não o cargo que existe. O resultado são descrições com responsabilidades que ninguém executa ou requisitos que nunca foram realmente usados como critério de seleção.
As perguntas de sondagem mais eficazes para identificar responsabilidades reais:
- "Quantas vezes por mês isso acontece de fato?" — uma responsabilidade real tem frequência mensurável.
- "Quem faria isso se essa posição estivesse vaga?" — responsabilidades reais têm impacto real quando a posição fica vaga; as aspiracionais não são percebidas.
- "O que aconteceria se essa pessoa não fizesse isso por um mês?" — responsabilidades críticas têm consequências identificáveis.
Para requisitos de qualificação, a pergunta mais reveladora é: "Na última vez que você contratou para esse cargo, esse requisito foi um filtro real ou era desejável?" Requisitos que nunca foram usados como filtro real não são requisitos mínimos — são preferências.
O que fazer quando o gestor não sabe responder
Em alguns casos — especialmente quando o cargo é novo ou muito técnico —, o gestor não consegue responder com clareza. Isso é informação, não falha da entrevista.
Estratégias para esse momento:
- Ancoragem por problema: "Qual é o principal problema que essa posição resolve para você?" — gestores tendem a saber o problema mesmo quando não sabem descrever a solução.
- Inversão: "O que definitivamente não é responsabilidade dessa posição?" — às vezes é mais fácil delimitar pelo que não faz.
- Referência a outra posição: "Esse cargo se parece mais com [cargo A] ou [cargo B] — e o que o diferencia de cada um?"
- Adiamento estruturado: encerrar essa parte da entrevista, enviar um sumário com o que foi coletado e pedir que o gestor complete o que ficou em aberto por escrito — em até 2 dias úteis.
Validação da descrição com o gestor após a entrevista
A entrevista não termina na conversa — termina na validação do documento resultante. O ciclo completo é:
- Entrevista com o gestor.
- Elaboração do rascunho da descrição pelo RH — em até 3 dias úteis da entrevista.
- Envio do rascunho ao gestor para revisão — com prazo de resposta de 3 a 5 dias úteis.
- Incorporação dos comentários e revisão final.
- Aprovação final pelo gestor.
O gestor que aprova formalmente a descrição é co-responsável pelo documento — o que reduz a probabilidade de "o cargo não é bem assim" em processos seletivos futuros.
Geralmente, 1 gestor por cargo é suficiente — e a validação pode ser informal (e-mail com "OK, está correto"). O mais importante é que a aprovação fique registrada.
O gestor aprova; o RH e, quando aplicável, a área de remuneração validam a consistência com outros cargos similares da empresa — para evitar inflação de requisitos ou inconsistência entre níveis.
Múltiplos gestores para o mesmo cargo em áreas diferentes precisam chegar a uma versão consolidada. A validação cruzada entre gestores — conduzida pelo RH — é necessária para garantir que o cargo está descrito de forma consistente independentemente da área.
Sinais de que o processo de entrevista com gestores precisa de revisão
Se você se reconhece em três ou mais cenários abaixo, as descrições resultantes provavelmente não refletem a função real:
- Gestores descrevem o cargo focando na pessoa que ocupa hoje — não na função em si.
- As descrições resultantes ficam genéricas demais para diferenciar cargos similares.
- O RH preenche a descrição sem conversar com o gestor, apenas com base em vagas anteriores.
- Gestores reclamam que o perfil contratado não é o que precisavam — apesar de terem validado a descrição.
- As descrições têm requisitos irreais que excluem candidatos qualificados.
- Dois gestores para o mesmo cargo descrevem funções completamente diferentes — sem que o RH tenha consolidado as versões.
Caminhos para estruturar o processo de análise de cargos
Há duas abordagens — uma para gestão interna de escala pequena e outra para reestruturações de maior abrangência.
Com analista de RH dedicado, roteiro estruturado e acesso direto aos gestores, é possível construir ou revisar descrições internamente para empresas com até 30 a 40 cargos distintos.
- Perfil necessário: analista de RH com experiência em condução de entrevistas e conhecimento de estrutura organizacional
- Tempo estimado: 45 a 60 minutos por cargo na entrevista + 2 dias para elaboração + ciclo de validação
- Faz sentido quando: a empresa tem volume gerenciável de cargos e o RH tem capacidade dedicada para o projeto
- Risco principal: inconsistência entre cargos de áreas diferentes sem validação cruzada estruturada
Quando o escopo é uma reestruturação completa de cargos ou a empresa precisa integrar as descrições a um sistema de pontuação de cargos, consultoria especializada garante metodologia e consistência.
- Tipo de fornecedor: Consultoria de RH especializada em Gestão de Cargos e Salários
- Vantagem: metodologia de job analysis validada, benchmark de mercado e protocolo de validação cruzada entre áreas
- Faz sentido quando: o escopo inclui mais de 50 cargos distintos ou o projeto está integrado a revisão salarial
- Resultado típico: estrutura de cargos revisada em 2 a 4 meses com consistência entre todas as áreas
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Perguntas frequentes
Como fazer levantamento de cargo com gestor?
O levantamento começa com preparação: revisar a descrição existente, consultar a CBO e o organograma da área. A entrevista segue roteiro em três fases — abertura (contexto e posicionamento), aprofundamento (responsabilidades e requisitos) e verificação (distinguir cargo de pessoa e real de aspiracional). Após a entrevista, o RH elabora o rascunho e submete ao gestor para validação formal antes de finalizar.
Roteiro de entrevista para análise de cargo
O roteiro inclui: perguntas de abertura para entender o posicionamento do cargo na equipe; perguntas de aprofundamento sobre responsabilidades principais, requisitos técnicos inegociáveis e formação mínima aceitável; e perguntas de verificação para separar o cargo da pessoa atual e o requisito real do desejo do gestor. A pergunta mais eficaz para separar cargo de pessoa: "Se a pessoa atual saísse amanhã e você contratasse alguém diferente mas igualmente competente, essa responsabilidade ainda estaria no cargo?"
Perguntas para gestor sobre descrição de cargo
As perguntas mais produtivas são: "O que essa posição entrega que, se não fosse entregue, afetaria mais o resultado da sua área?"; "Quantas vezes por mês isso acontece de fato?"; "Na última contratação para esse cargo, esse requisito foi um filtro real ou era apenas desejável?"; e "O que definitivamente não é responsabilidade dessa posição?". Essas perguntas extraem o que o cargo realmente faz — não o que o gestor gostaria que ele fizesse.
Método de coleta de informações para descrever cargos
Os métodos principais são: entrevista (mais confiável, permite exploração em tempo real), questionário (eficiente para muitos cargos, mas sujeito a respostas aspiracionais), observação (útil para cargos operacionais com tarefas manuais) e combinações entre eles. Como referência de mercado, a combinação de questionário prévio com entrevista estruturada é o método de maior acuracidade para cargos de conhecimento e liderança.
Como evitar descrições de cargo genéricas?
Descrições genéricas resultam de perguntas genéricas ou de aceitar respostas aspiracionais sem verificação. Para evitar: use perguntas de ancoragem em frequência ("quantas vezes por mês?") e em impacto ("o que acontece se isso não for feito?"); separe sistematicamente o que o cargo faz do que a pessoa atual faz; e valide a consistência da descrição resultante com outras posições similares da empresa antes de finalizar.
Quem deve validar a descrição de cargo — gestor ou RH?
Os dois têm papéis distintos na validação. O gestor valida a acuracidade — se as responsabilidades e requisitos refletem o cargo real da sua área. O RH valida a consistência — se o cargo está descrito de forma coerente com outros cargos similares na organização e se os requisitos são realistas em relação ao mercado. A aprovação formal do gestor é o encerramento do ciclo de construção da descrição.