Como este tema funciona no seu condomínio
Obra por administração aqui é quase sempre reforma estrutural ou recuperação — fachada, telhado, prumada —, e não conclusão de empreendimento. O risco maior não é tributário: é trabalhista. Sem estrutura administrativa, contratar empreitada global costuma custar menos, no fim, do que administrar a obra e assumir o passivo de quem trabalha nela.
Já há administradora e contabilidade, e a decisão passa a ser operacional: quem emite nota, quem retém e quem responde pelo recolhimento de cada prestador. O condomínio figura como tomador dos serviços que contrata — o que gera obrigação de retenção, e não de recolher ISS sobre a própria gestão da obra.
É o cenário do caso real: empreendimento novo, incorporadora destituída e condomínio assumindo a conclusão com equipe e contratos próprios. Aqui a exigência é de governança — deliberação de assembleia, prestação de contas específica da obra, seguro e, se vier autuação, defesa administrativa antes da judicial.
Obra por administração é o arranjo em que o condomínio assume a gestão da própria obra: contrata diretamente mão de obra, materiais e serviços especializados, e paga um administrador ou gestor pela coordenação, em vez de entregar o conjunto a uma construtora por preço fechado. Difere da empreitada, em que uma empresa assume a execução e responde pelo resultado. O ISSQN é imposto municipal que incide sobre a prestação de serviços a terceiros mediante remuneração — e o condomínio que administra a conclusão da própria obra figura como tomador dos serviços que contrata, não como prestador de serviço a alguém.
Condomínio paga ISS na obra que ele mesmo administra? A resposta direta
A tese que vem prevalecendo em discussões judiciais é a de que não: quem administra a conclusão do próprio patrimônio não presta serviço a terceiro e, portanto, não é contribuinte do ISSQN por essa gestão. O que continua devido é o ISS dos prestadores efetivamente contratados, cada um pelo serviço que presta ao condomínio.
Atenção ao enquadramento, porque ele muda tudo na prática. A decisão que deu visibilidade ao tema é uma sentença de primeira instância, em um município específico e sujeita a recurso — não uma regra nacional. Segundo a ConJur, em agosto de 2026, a Vara da Fazenda Pública de Sorocaba, em São Paulo, com sentença do juiz Cassiano Gomes Zimmermann, declarou inexigível ISSQN de R$ 216.831,33 cobrado de um condomínio que concluiu a própria obra depois de destituir a incorporadora.[1] O município enquadrava o caso no item 7.02 da lista da Lei Complementar 116/2003; a sentença entendeu que o condomínio era tomador, e não prestador, faltando serviço prestado em benefício de terceiro.
Este artigo explica o mecanismo para que o síndico saiba fazer as perguntas certas. Ele não substitui a orientação da contabilidade e do jurídico do condomínio, que precisam analisar a legislação do seu município.
O que é obra por administração (e no que difere da empreitada)
A diferença entre os três arranjos está em quem assume o risco da execução e quem responde por quem trabalha na obra. Isso define quem emite nota, quem é contribuinte de qual tributo e onde mora o passivo trabalhista.
Empreitada global: quem emite nota e quem paga o quê
Na empreitada global, o condomínio contrata uma empresa que assume a obra inteira por preço ajustado e responde pelo resultado. Ela fornece mão de obra e materiais, emite nota fiscal contra o condomínio e é a contribuinte do ISS sobre o serviço que presta.
É o arranjo mais simples para o condomínio: uma nota, um responsável, um contrato. Custa mais em preço nominal, porque a empresa precifica o risco que assume, e costuma custar menos em problema.
Empreitada parcial: onde mora a confusão
Na empreitada parcial, o condomínio contrata empresas diferentes para partes da obra — uma para a estrutura, outra para hidráulica, outra para pintura — e cada uma responde pela sua parte, emitindo a sua nota.
A confusão aparece na coordenação. Como ninguém responde pelo conjunto, o condomínio acaba fazendo a compatibilização entre os contratos, e é fácil escorregar da posição de tomador para a de gestor de fato da obra — sem ter estruturado nada para isso. Se é esse o caso, melhor assumir o arranjo com clareza do que ficar em uma zona cinzenta contratual.
Obra por administração: o condomínio vira gestor da obra
Aqui o condomínio contrata diretamente mão de obra, materiais e serviços, e remunera um administrador ou gestor pela coordenação. O resultado da obra é risco do condomínio, e não de uma construtora.
Duas consequências merecem atenção. A primeira é o motivo pelo qual o tema é discutido: não há prestação de serviço a terceiro na gestão da própria obra. A segunda é menos comentada e mais perigosa — quem administra a obra assume também a posição de quem organiza o trabalho de quem está no canteiro, com todo o passivo que isso implica.
Quem é contribuinte do ISS na construção civil
Contribuinte é quem presta o serviço. Na construção civil, isso significa a construtora, a empreiteira ou o profissional que executa o serviço contratado — e não quem paga por ele.
O que a LC 116/2003 diz sobre obras de construção civil
A Lei Complementar 116/2003 define, no seu artigo 1º, que o fato gerador do ISS é "a prestação de serviços constantes da lista anexa".[2] A lista traz, no item 7.02, a "execução, por administração, empreitada ou subempreitada, de obras de construção civil, hidráulica ou elétrica e de outras obras semelhantes".[2]
É desse item que nasce a cobrança: a expressão "por administração" está lá, e alguns municípios a leem como autorização para tributar a obra administrada pelo próprio dono. Registre-se uma ressalva de honestidade — o artigo 1º não diz expressamente que o serviço precisa ser prestado a terceiro. A exigência de um terceiro beneficiário é a interpretação adotada na sentença de Sorocaba, não texto literal da lei.[1]
Por que "prestar serviço a si mesmo" muda a conta
Porque serviço, no sentido tributário, pressupõe uma relação entre duas partes: alguém que presta e alguém que recebe, mediante remuneração. Quem organiza a construção do próprio bem não está vendendo serviço a ninguém.
A analogia que o síndico entende de imediato: quem pinta a própria casa no fim de semana não emite nota nem recolhe ISS sobre a própria pintura. O condomínio que administra a conclusão do seu edifício está, na estrutura, na mesma posição — com a diferença de que contrata terceiros para executar, e sobre o serviço desses terceiros o imposto continua incidindo normalmente.
Por que a resposta pode mudar de município para município
Porque o ISS é imposto municipal: cada município tem a sua legislação, a sua administração fazendária e a sua interpretação da lista de serviços. Uma decisão favorável em uma cidade não vincula a prefeitura vizinha.
Some a isso que a sentença de Sorocaba é de primeira instância e sujeita a recurso, e o quadro fica claro: não existe hoje uma resposta nacional consolidada. O que existe é uma tese com fundamento consistente e uma decisão que a acolheu em um caso concreto. Antes de decidir qualquer coisa com base neste artigo, confirme com a contabilidade do condomínio como o seu município trata o item 7.02.
O que o condomínio continua devendo como tomador
Como tomador, o condomínio continua obrigado a exigir nota fiscal de cada prestador, a fazer as retenções que a legislação municipal e federal lhe atribuem e a recolher o que reteve nos prazos devidos. Não ser contribuinte do ISS pela gestão da obra não elimina nenhuma dessas obrigações.
| Arranjo | Quem é contribuinte do ISS | Quem emite nota | Onde fica o risco trabalhista |
|---|---|---|---|
| Empreitada global | A empresa contratada, pelo serviço que presta | A empresa, contra o condomínio | Com a empresa, com possibilidade de responsabilização do tomador |
| Empreitada parcial | Cada empresa contratada, pela sua parte | Cada empresa, contra o condomínio | Distribuído entre as contratadas; a coordenação fica com o condomínio |
| Obra por administração | Cada prestador contratado; a gestão da obra própria é o ponto em discussão | Os prestadores; o condomínio, como tomador, não emite nota da própria obra | Concentrado no condomínio, que organiza o trabalho no canteiro |
O condomínio emite nota fiscal?
Não, quando está na posição de tomador — nota fiscal de serviço é emitida por quem presta o serviço, e o condomínio que administra a própria obra não está prestando serviço a ninguém.
O que o condomínio faz é o oposto: exige e arquiva as notas dos prestadores. Cada nota recebida deve identificar o prestador, descrever o serviço, indicar o local da obra e destacar as retenções aplicáveis. Nota genérica, com descrição vaga, é problema em duas frentes — enfraquece a prestação de contas perante os moradores e fragiliza a posição do condomínio se houver questionamento fiscal.
Quais retenções o condomínio faz na nota do prestador
As retenções variam conforme o serviço, o município e a natureza do prestador, e é a contabilidade do condomínio que define caso a caso. O que o síndico precisa é de rotina, não de domínio técnico:
- Conferir a nota antes de pagar: dados do prestador, descrição do serviço, local da obra e valores destacados.
- Confirmar com a contabilidade quais retenções incidem naquele serviço específico, antes do primeiro pagamento a cada novo prestador.
- Reter e recolher no prazo, guardando o comprovante junto da nota correspondente.
- Arquivar por prestador e por mês, de forma que qualquer conferência posterior seja possível sem garimpo.
- Levar o resumo à prestação de contas da obra, separado das contas ordinárias do condomínio.
A obra própria precisa de cadastro específico na Receita Federal?
Obras costumam exigir cadastro específico junto à Receita Federal, e as regras de obrigatoriedade, prazo e responsável variam conforme o caso. Confirme com a contabilidade do condomínio antes de iniciar a obra.
Este artigo não afirma prazo nem hipótese de obrigatoriedade porque essa informação não pôde ser verificada em fonte normativa primária durante a apuração. Trate a pendência como item de checklist: pergunte à contabilidade qual cadastro se aplica, quem é o responsável por abri-lo e em que momento — e registre a resposta por escrito, para que a obra não comece com essa lacuna aberta.
O que muda por porte do condomínio
O que muda por porte é a escolha do arranjo e a estrutura disponível para sustentá-lo, não a regra tributária. As orientações abaixo são práticas e não correspondem a benchmark estatístico — não há dado oficial brasileiro comparando custo de obra por administração e por empreitada.
A obra costuma ser reforma ou recuperação, e a pergunta relevante não é tributária: é se o condomínio tem quem administre o canteiro no dia a dia. Sem estrutura administrativa, a economia aparente da obra por administração é consumida por atraso, retrabalho e pelo passivo de quem trabalha na obra.
Na maioria dos casos desse porte, empreitada global com contrato claro e retenção contratual até o aceite é a escolha mais defensável perante a assembleia. Se ainda assim optar por administrar, formalize tudo por escrito e exija nota de todos os prestadores, sem exceção.
Com administradora e contabilidade, a decisão vira uma matriz de responsabilidade por contrato: para cada prestador, quem emite nota, o que se retém, quem confere e quem autoriza o pagamento. Monte essa matriz antes da primeira contratação, não depois da primeira nota estranha.
O erro típico do porte é misturar a obra com as contas ordinárias. Separe desde o início — conta ou centro de custo próprio, prestação de contas específica —, porque é essa separação que permite demonstrar depois, com clareza, a posição do condomínio como tomador e o destino de cada real.
É onde aparece o cenário de assumir a conclusão de um empreendimento, com equipe e contratos próprios e valores relevantes. A governança precisa acompanhar: deliberação de assembleia com escopo e orçamento aprovados, prestação de contas específica da obra, acompanhamento técnico independente e seguro compatível com o risco.
Vale também preparar a hipótese de autuação antes de ela existir. Mantenha organizado o conjunto de documentos que sustenta a posição de tomador — contratos, notas, atas, comprovantes de retenção — de forma que uma defesa administrativa possa ser montada em dias, e não em meses.
Quando o condomínio assume a obra da incorporadora
Quando o condomínio destitui a incorporadora e assume a conclusão do empreendimento, ele passa a ser o dono da obra em todos os sentidos: contrata, paga, coordena e responde. É o cenário de maior exposição — e o que gerou a discussão tributária tratada aqui.[1]
O que a assembleia precisa aprovar para o condomínio assumir a obra
A assembleia precisa aprovar, de forma expressa e registrada em ata, o conjunto de decisões que dá suporte à obra — e não apenas "a realização da obra". Os pontos essenciais:
- A decisão de assumir a obra e o arranjo escolhido: administração, empreitada global ou parcial.
- O escopo e o orçamento, com valor total, forma de custeio e cronograma de desembolso.
- A alçada do síndico para contratar dentro da obra, com limite expresso por contrato.
- A forma de prestação de contas específica da obra, com periodicidade definida.
- O acompanhamento técnico e quem responde tecnicamente por ele.
- Os seguros exigidos dos contratados e do próprio condomínio durante a execução.
Riscos trabalhistas de administrar a obra com equipe própria
O passivo trabalhista costuma ser maior e mais provável do que o tributário, e é o ponto que a discussão sobre ISS acaba ofuscando. Quem administra a obra organiza o trabalho de quem está no canteiro — e é essa organização que sustenta pedidos de reconhecimento de vínculo.
Três cuidados reduzem bastante a exposição: contratar prestadores por contrato de serviço com objeto definido, e não pessoas para trabalhar sob a direção do condomínio; exigir e arquivar mensalmente a documentação de regularidade de cada empresa contratada; e não dar ordens diretas aos empregados dos prestadores, canalizando tudo pelo responsável de cada contrato.
Chegou uma autuação da prefeitura: qual o primeiro passo
O primeiro passo é a defesa administrativa dentro do prazo indicado no próprio auto — antes de pensar em judicializar. A via administrativa é mais rápida, não tem custo de sucumbência e muitas vezes resolve o caso ainda na esfera municipal.
- Anote o prazo assim que o auto chegar; é ele que comanda todo o resto.
- Leia o enquadramento: qual item da lista de serviços foi apontado e qual o período autuado.
- Reúna a documentação que demonstra a posição do condomínio como tomador.
- Acione contabilidade e jurídico do condomínio em conjunto, porque a tese depende de fato e de norma municipal.
- Comunique conselho e assembleia, registrando a autuação e a estratégia de defesa em ata.
- Só avalie a via judicial depois da decisão administrativa, com o custo e a chance mapeados.
Seja para responder a uma autuação, seja para nunca receber uma, o conjunto de documentos abaixo é o que sustenta a posição do condomínio como tomador:
- Ata da assembleia que aprovou a obra, o arranjo escolhido, o escopo e o orçamento
- Contratos assinados com todos os prestadores, com objeto e responsabilidades definidos
- Notas fiscais de todos os prestadores, com descrição do serviço e local da obra
- Comprovantes das retenções efetuadas e dos recolhimentos correspondentes
- Registro contábil da obra separado das contas ordinárias do condomínio
- Prestação de contas específica da obra apresentada aos moradores
- Documentação de regularidade das empresas contratadas, arquivada mês a mês
- Comprovação de que a obra beneficia exclusivamente o próprio condomínio
O condomínio vai assumir uma obra e precisa organizar a gestão?
Se a assembleia decidiu executar uma obra por administração ou assumir a conclusão de um empreendimento, o oHub conecta condomínios a assessorias especializadas em gestão condominial e acompanhamento de obras. Em menos de 3 minutos, sem compromisso.
Encontrar fornecedores de Condomínios no oHub
Sem custo, sem compromisso. Você recebe propostas e decide se e com quem avançar.
Perguntas frequentes
Condomínio paga ISS na obra que ele mesmo administra?
A tese que vem prevalecendo em discussões judiciais é a de que não, porque o ISS incide sobre serviço prestado a terceiro mediante remuneração e o condomínio que administra a própria obra figura como tomador, não como prestador. Mas trata-se de decisão de primeira instância, em um município específico e sujeita a recurso — não de regra nacional consolidada. Como o ISS é imposto municipal, confirme com a contabilidade do condomínio como o seu município trata o tema.
O que é obra por administração?
É o arranjo em que o condomínio assume a gestão da própria obra, contratando diretamente mão de obra, materiais e serviços especializados e remunerando um administrador pela coordenação, em vez de entregar o conjunto a uma construtora por preço fechado. Difere da empreitada, em que uma empresa assume a execução e responde pelo resultado. Na obra por administração, o risco da execução e a organização do trabalho no canteiro ficam com o condomínio.
Quem é o contribuinte do ISS na construção civil?
Contribuinte é quem presta o serviço: a construtora, a empreiteira ou o profissional que executa o que foi contratado — não quem paga por ele. A Lei Complementar 116/2003 define como fato gerador a prestação de serviços constantes da lista anexa, cujo item 7.02 trata da execução, por administração, empreitada ou subempreitada, de obras de construção civil. O condomínio, ao contratar esses prestadores, ocupa a posição de tomador.
Condomínio precisa emitir nota fiscal?
Não na posição de tomador, porque nota fiscal de serviço é emitida por quem presta o serviço. O que o condomínio faz é exigir e arquivar as notas dos prestadores, conferindo se cada uma identifica o prestador, descreve o serviço, indica o local da obra e destaca as retenções aplicáveis. Nota com descrição vaga enfraquece a prestação de contas e fragiliza a posição do condomínio em caso de questionamento fiscal.
O que fazer se a prefeitura autuar o condomínio?
Comece pela defesa administrativa, dentro do prazo indicado no próprio auto, antes de pensar em judicializar — a via administrativa é mais rápida e não tem custo de sucumbência. Anote o prazo, identifique qual item da lista de serviços foi apontado e qual o período autuado, reúna contratos, notas, atas e comprovantes de retenção, e acione contabilidade e jurídico do condomínio em conjunto. Comunique conselho e assembleia, registrando a autuação e a estratégia em ata.
Fontes e referências
- Consultor Jurídico (ConJur). Condomínio que conclui obra após destituir incorporadora é isento de ISSQN, 2026. Sentença da Vara da Fazenda Pública de Sorocaba (SP), juiz Cassiano Gomes Zimmermann.
- Brasil. Lei Complementar nº 116, de 31 de julho de 2003 — dispõe sobre o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (art. 1º e lista de serviços, item 7.02). Planalto.gov.br.