Como este tema funciona na sua empresa
Praticamente toda a criptografia relevante é de terceiro — navegador, SaaS, VPN, provedor de e-mail, certificado do site. Não há o que migrar por conta própria, mas há dado longevo guardado em serviço alheio. A prioridade é listar onde existe dado que precisa continuar confidencial por muitos anos, perguntar aos principais fornecedores qual é o plano deles, manter software e certificados em dia e evitar contrato longo sem cláusula de atualização criptográfica.
Já tem infraestrutura própria — VPN, certificados internos, assinatura de código ou de documento, backup cifrado, integrações com parceiros — e normalmente não sabe onde a criptografia está, porque nunca foi inventariada. A prioridade é montar o inventário criptográfico de verdade, começando por certificados e canais externos, classificar o dado por longevidade e incluir requisito de criptografia pós-quântica nas renovações de contrato.
Opera ambiente híbrido com legado, PKI própria, HSM, dispositivos embarcados, terceiros críticos e, com frequência, exigência de cliente ou de regulador. O desafio é escala somada a ativos que não se atualizam por software. A prioridade é inventário contínuo e automatizado, classificação formal do dado por prazo de valor, plano de migração faseado com dono e orçamento, adoção de modo híbrido onde disponível e agilidade criptográfica tratada como requisito de arquitetura.
Criptografia pós-quântica (PQC, de post-quantum cryptography) é o conjunto de algoritmos criptográficos projetados para resistir a ataques executados por computadores quânticos, mas que rodam em computadores convencionais — servidores, notebooks e dispositivos comuns. Ela substitui os algoritmos assimétricos hoje usados para troca de chaves e assinatura digital, que perderiam segurança diante de um computador quântico suficientemente capaz. PQC não é criptografia quântica: a criptografia quântica, ou distribuição quântica de chaves (QKD), depende de hardware óptico especializado para distribuir chaves e é outra tecnologia, com outro problema e outro custo. A migração para PQC é uma troca de algoritmo dentro da infraestrutura que a empresa já tem.
O que é criptografia pós-quântica — e o que ela não é
Criptografia pós-quântica é a troca dos algoritmos criptográficos vulneráveis a computação quântica por algoritmos resistentes a ela, executados na mesma infraestrutura de sempre. Essa frase carrega duas correções importantes. A primeira: não se trata de comprar hardware novo nem de esperar por uma tecnologia futura — os algoritmos rodam em computadores clássicos e já existem como padrão publicado. A segunda: nem toda a criptografia do parque está em jogo, e entender qual parte está é o que impede que o projeto vire uma reescrita geral sem prioridade.
Por que a criptografia assimétrica é a exposta
A criptografia assimétrica é a exposta porque sua segurança se apoia em problemas matemáticos que um computador quântico suficientemente capaz resolveria de forma eficiente. É ela que sustenta duas funções críticas: a troca de chaves — o mecanismo pelo qual dois lados combinam um segredo comum antes de conversar — e a assinatura digital, que comprova origem e integridade. RSA, ECDSA, ECDH e Diffie-Hellman pertencem a essa família.
A consequência prática para o gestor é que o esforço tem endereço conhecido: TLS de sites e APIs, VPN e acesso remoto, PKI e emissão de certificados, assinatura de código, de documento e de firmware, e todo mecanismo de estabelecimento de sessão cifrada. É uma lista finita e mapeável — bem diferente da impressão de que "toda a criptografia da empresa precisa mudar".
Por que criptografia simétrica e hash são afetados de outra forma
Criptografia simétrica e funções de hash são afetadas de forma muito menos severa, e a resposta para elas é principalmente aumentar o tamanho da chave ou do resumo. Enquanto a assimétrica precisa de algoritmos inteiramente novos, a simétrica — o tipo usado para cifrar volume de dados, backup, disco e tráfego depois que a sessão foi estabelecida — mantém sua estrutura e apenas exige margem maior.
Na prática, isso significa que a cifragem em repouso de um backup ou de um banco de dados é o problema menor, desde que o parque não esteja preso a tamanhos de chave antigos. O ponto de atenção fica no mecanismo que protege a chave desse backup: se a chave simétrica é transportada ou encapsulada por criptografia assimétrica, o elo fraco volta a ser o assimétrico. Boa parte dos ambientes descobre isso apenas quando faz o inventário.
PQC não é criptografia quântica: por que a confusão custa caro
São tecnologias distintas e a confusão entre elas leva a decisões erradas de orçamento. Criptografia pós-quântica é software: algoritmos novos rodando em máquinas comuns, distribuídos por atualização de biblioteca, de sistema operacional e de appliance. Distribuição quântica de chaves (QKD) é infraestrutura física: exige enlaces ópticos dedicados, equipamento especializado e tem alcance e aplicabilidade limitados.
A confusão custa de duas formas: a empresa conclui que o tema é inacessível porque acredita precisar de hardware quântico e adia tudo, ou avalia uma solução de QKD acreditando que ela resolve a exposição dos seus certificados e do seu TLS — e não resolve. A transição que praticamente toda organização precisa fazer é a de PQC, dentro do parque que já existe.
Harvest now, decrypt later: por que o risco é presente
O risco é presente porque tráfego cifrado capturado agora pode ser armazenado e decifrado no futuro, quando a capacidade computacional existir. Esse modelo de ameaça — conhecido no mercado como harvest now, decrypt later, ou "colher agora, decifrar depois" — desloca a pergunta que o gestor precisa responder. Ela deixa de ser quando o computador quântico chega? e passa a ser que dado meu ainda vai ter valor daqui a dez ou quinze anos?. A segunda pergunta é respondível hoje, com informação que a empresa já tem.
Como funciona a captura hoje para decifrar depois
O mecanismo é simples e não exige nenhuma tecnologia futura da parte de quem captura: basta armazenar o tráfego cifrado interceptado. Se, anos depois, o algoritmo que protegia aquela sessão deixar de resistir, o conteúdo é aberto retroativamente. A proteção que valia no momento da transmissão não protege o dado para sempre — ela protege pelo tempo em que o algoritmo se sustentar.
É por isso que a exposição não é hipotética nem adiável para quem transmite dado de vida longa. Um contrato de vinte anos, um prontuário, um segredo industrial ou uma chave-mestra que atravessa a rede hoje carrega o risco de ser lido no prazo em que ainda importa. Como referência de mercado, esse é o modelo de ameaça que sustenta os cronogramas de transição publicados.
Que dado ainda terá valor daqui a dez ou quinze anos
A triagem por longevidade é o critério de priorização de todo o restante do trabalho, e ela é mais fácil do que parece. Dado longevo é o que continua sensível muito depois de gerado: prontuário e histórico de saúde, contrato de longo prazo, dado de identidade civil, propriedade intelectual e segredo industrial, resultado de pesquisa, informação estratégica e financeira estruturante, e — o caso mais crítico — material criptográfico, como chaves-mestras e chaves privadas de raiz, cuja exposição compromete tudo o que elas protegem.
Dado descartável é o oposto: log de acesso do mês passado, sessão de navegação, telemetria operacional, dado transacional já liquidado e que perde sentido isolado. Vazado daqui a doze anos, ele não produz dano relevante. Separar essas duas categorias, mesmo de forma grosseira, é o que permite dizer com honestidade quais canais precisam ser tratados primeiro e quais podem esperar o ciclo natural de atualização.
O prazo de vida da criptografia embutida nos ativos
O segundo fator da decisão é quanto tempo cada ativo levará para trocar de algoritmo — e essa conta raramente é a do software. Um HSM, uma controladora industrial, um leitor de crachá, o firmware de um equipamento de campo, um certificado raiz com validade de uma década, um sistema legado com biblioteca criptográfica congelada em versão sem suporte: nada disso muda de algoritmo por atualização remota.
Daí a regra que orienta o planejamento: o tempo de migrar não é o tempo do padrão, é o tempo do ativo mais teimoso do parque. Se há equipamentos em campo com ciclo de vida de dez anos, a decisão de comprar um substituto compatível precisa ser tomada muitos anos antes do prazo final — não porque o padrão exige, mas porque o ciclo de capex da empresa exige.
A triagem cabe em uma página: quais informações a empresa guarda que ainda seriam sensíveis daqui a dez anos, e em quais serviços de terceiros elas estão. Com isso já se pergunta ao fornecedor certo. Esta segmentação é orientação prática, não benchmark de mercado.
Classifique por tipo de dado, com prazo de valor declarado, e cruze com os canais por onde esse dado trafega. O objetivo é sair da discussão genérica e conseguir apontar dois ou três canais que concentram o dado longevo.
Ligue a classificação por longevidade à política de retenção e ao ciclo de vida da informação que já existe, em vez de criar um esquema paralelo. O ganho está em reaproveitar a classificação formal para priorizar a migração criptográfica.
Em que estágio a padronização está de fato
Os padrões existem e já foram publicados — a percepção comum de que "ainda não há padrão, então não há o que fazer" está errada e adia trabalho que já pode começar. Essa correção importa porque muda o argumento interno: não se trata de acompanhar uma pesquisa em andamento, e sim de planejar a adoção de algoritmos com especificação final publicada por um órgão de padronização.
Os padrões já publicados e o que cada um resolve
Segundo o NIST, em 2024, foram publicados em 13 de agosto os padrões federais FIPS 203, FIPS 204 e FIPS 205[1]. Cada um cobre uma função distinta, e conhecer a divisão ajuda a ler o que os fornecedores anunciam:
- FIPS 203 (ML-KEM) — encapsulamento de chave, isto é, o mecanismo que substitui a troca de chaves em sessões cifradas. É o que aparece primeiro em TLS e VPN.
- FIPS 204 (ML-DSA) — assinatura digital de uso geral, aplicável a certificados, assinatura de código e de documento.
- FIPS 205 (SLH-DSA) — assinatura digital baseada em hash, com premissas de segurança diferentes, usada onde se quer diversificar o risco de depender de uma única família matemática.
Ainda segundo o NIST, o algoritmo HQC foi selecionado para padronização em 11 de março de 2025, com o padrão correspondente em elaboração[1]. A leitura prática é que a base para migrar já está publicada, e a seleção adicional serve principalmente à diversificação — não é motivo para esperar.
Os prazos de transição propostos e o peso que eles têm no Brasil
Existe um cronograma de transição publicado, mas ele precisa ser lido com duas ressalvas explícitas. O NIST IR 8547, em rascunho público inicial, propõe que algoritmos clássicos com 112 bits de força de segurança — RSA, ECDSA, ECDH e Diffie-Hellman em corpo finito nessa faixa — sejam considerados depreciados após 2030 e não permitidos após 2035, e que esquemas com 128 bits ou mais também deixem de ser permitidos após 2035; o documento referencia a meta de 2035 estabelecida pelo memorando NSM-10[2].
As duas ressalvas são obrigatórias na leitura. Primeira: trata-se de rascunho público inicial, não de norma final — os prazos podem mudar. Segunda: é referência do governo dos Estados Unidos e não é norma brasileira; não vincula empresa no Brasil. O valor dela para o gestor brasileiro é outro e é concreto: funciona como régua de planejamento e como o prazo que fornecedores globais, matrizes e clientes internacionais tendem a adotar — e que chega à empresa brasileira por exigência contratual, não por lei. Não existe, e este artigo não oferece, qualquer data para um computador quântico quebrar RSA ou criptografia de curvas elípticas.
Inventário criptográfico: o que levantar e por que ele se paga sozinho
O inventário criptográfico é o levantamento de onde a criptografia está no parque, qual algoritmo cada uso emprega, qual o prazo de vida do ativo e quem responde por ele. É a primeira entrega do tema e a única que continua valendo qualquer que seja o desfecho do cronograma quântico — porque sem saber o que se tem, não há como priorizar, orçar ou exigir nada de fornecedor.
O roteiro de levantamento, em oito frentes
O levantamento se organiza por onde a criptografia aparece, não por sistema. Percorrer estas oito frentes cobre o essencial:
- Canais externos — TLS de sites institucionais, portais, APIs públicas e servidores de e-mail.
- Certificados — quantos existem, onde estão instalados, validade, emissor e responsável por cada um.
- Acesso remoto e VPN — concentradores, túneis site a site e integrações com parceiros.
- Assinatura — de código, de documento e de firmware, incluindo o que assina pacotes de atualização.
- Dados em repouso — backup, banco de dados, storage e volumes cifrados.
- Chaves e cofres — HSM, serviços de gestão de chaves e ferramentas de gestão de segredos.
- Criptografia embutida — dispositivos, appliances, equipamento de automação e sistemas legados com biblioteca congelada.
- O que os fornecedores cifram em nome da empresa — SaaS, provedores de nuvem, parceiros de integração.
O que registrar sobre cada item encontrado
Para cada item, quatro campos bastam e nenhum deles pode faltar: algoritmo e tamanho de chave em uso; onde o item está e o que ele protege; prazo de vida do ativo, isto é, quando ele será substituído ou atualizado no ciclo normal; e dono, a pessoa ou equipe que responde por ele. O campo de prazo de vida é o mais negligenciado e o mais importante: é ele que revela quais ativos precisam entrar em decisão de compra muito antes do prazo final.
A profundidade varia com o porte: planilha de serviços e certificados nas empresas pequenas, descoberta semiautomatizada de rede e repositórios nas médias, descoberta contínua integrada ao inventário de configuração nas grandes. Essa gradação é orientação prática, não benchmark de mercado.
Por que o inventário se paga sozinho, mesmo ignorando o tema quântico
Porque ele resolve problemas operacionais que já existem e já custam dinheiro. Um inventário criptográfico típico encontra certificados que expiram sem que ninguém seja avisado — causa recorrente de indisponibilidade cara e evitável —, bibliotecas criptográficas em versão sem suporte do fabricante, chaves sem dono declarado, algoritmos obsoletos ainda ativos em serviços internos e, com frequência desconfortável, canais que se supunha cifrados e não estão.
Esse é o argumento que destrava orçamento. Pedir verba para "se preparar para o computador quântico" compete com prioridades imediatas e costuma perder. Pedir verba para "parar de ter indisponibilidade por certificado vencido e saber onde está nossa criptografia" resolve um problema do trimestre e entrega, de brinde, a base do trabalho de migração.
Ordem de migração: o que se troca primeiro
A ordem de migração se define cruzando três variáveis: a longevidade do dado protegido, a exposição do canal e a facilidade de troca do ativo. A regra prática que sai desse cruzamento é direta — primeiro o que protege dado longevo, em canal exposto, e é fácil de trocar; por último o que é difícil de trocar mas protege dado descartável. O caso duro fica no meio: dado longevo em ativo difícil de trocar, que exige decisão antecipada porque o prazo é de anos.
A matriz de priorização por classe de ativo
A tabela abaixo aplica o cruzamento às classes de ativo mais comuns. A classificação é orientação prática editorial, não benchmark de mercado — cada empresa ajusta conforme o que de fato trafega em cada canal:
| Classe de ativo | Longevidade do dado protegido | Exposição do canal | Facilidade de troca | Posição na fila |
|---|---|---|---|---|
| TLS de sites e APIs públicas | Variável, mas frequentemente alta | Alta — tráfego na internet aberta | Alta — atualização de software e configuração | Primeira onda |
| VPN e acesso remoto | Alta — carrega tudo o que a empresa acessa | Alta | Média a alta — depende do fabricante | Primeira onda |
| Integrações com parceiros | Alta quando trafega contrato ou dado pessoal | Alta | Média — exige coordenação com o outro lado | Segunda onda |
| Assinatura de documento e de código | Alta — a validade precisa durar | Média | Média — depende de PKI e de ferramentas | Segunda onda |
| Backup e arquivamento de longo prazo | Muito alta por definição | Baixa | Média — atenção ao encapsulamento da chave | Segunda onda |
| PKI interna e raiz de confiança | Muito alta — compromete tudo o que emite | Baixa | Baixa — projeto de anos | Planejar cedo, executar em fases |
| HSM e serviços de gestão de chaves | Muito alta — é material criptográfico | Baixa | Baixa — ligada ao ciclo de hardware | Planejar cedo, ligar ao capex |
| Dispositivos embarcados e ambiente industrial | Variável | Média | Muito baixa — substituição física | Entra no ciclo de substituição |
| Sistemas legados com biblioteca congelada | Variável | Baixa a média | Muito baixa — sem suporte do fabricante | Decidir entre isolar, encapsular ou substituir |
Raiz de confiança e ativo embarcado: o caso mais duro
Esses dois casos exigem decisão antecipada porque o prazo de execução é medido em anos, não em ciclos de atualização. Uma raiz de confiança emite certificados com validade longa e sustenta a cadeia inteira; trocá-la significa reemitir, redistribuir confiança em todos os pontos que a validam e conviver com duas cadeias durante a transição. Nenhuma dessas etapas é rápida, e nenhuma delas melhora se for adiada.
O ativo embarcado tem outro tipo de rigidez: a criptografia está no equipamento e o equipamento tem ciclo de vida próprio, muitas vezes de uma década. A decisão prática não é "migrar o dispositivo", e sim incluir compatibilidade criptográfica como critério de compra no próximo ciclo de substituição — e, para o que ficar em campo além do prazo, decidir se será isolado em rede segmentada, encapsulado por uma camada externa que se possa atualizar, ou substituído antecipadamente.
Modo híbrido, agilidade criptográfica e o que exigir em contrato
A transição na prática não é uma troca instantânea de algoritmo: é uma fase híbrida, apoiada em arquitetura que permita trocar de novo, sustentada por contrato que obrigue o fornecedor a acompanhar. Esses três elementos — modo híbrido, agilidade criptográfica e cláusula contratual — são o que separa uma migração conduzida de uma migração sofrida.
O que é modo híbrido e quais efeitos observar
Modo híbrido é a combinação de um algoritmo clássico e um pós-quântico na mesma negociação de sessão, de modo que a segurança se mantenha se qualquer um dos dois falhar. É a via de transição adotada na prática justamente porque não pede confiança cega no algoritmo novo nem mantém a exposição do algoritmo antigo: ela cobre os dois riscos ao mesmo tempo.
Os efeitos colaterais são operacionais e previsíveis, e vale observá-los antes de habilitar em produção. O handshake fica maior, porque as chaves pós-quânticas são maiores que as clássicas; isso tem impacto em desempenho perceptível sobretudo em conexões de alta latência, em dispositivos de baixo poder de processamento e em serviços com altíssimo volume de novas conexões. Há ainda o comportamento de equipamentos intermediários que inspecionam ou terminam tráfego cifrado — firewalls, balanceadores, proxies — que podem não lidar bem com mensagens maiores. A recomendação prática é habilitar primeiro em ambiente controlado, medir, e só então expandir.
Agilidade criptográfica como requisito de arquitetura
Agilidade criptográfica é a capacidade de trocar de algoritmo sem reescrever sistema — e é a entrega mais perene deste artigo, porque vale para esta transição e para a próxima, qualquer que seja. Um ambiente ágil troca algoritmo por configuração; um ambiente rígido troca algoritmo por projeto de desenvolvimento.
Na prática, quatro exigências produzem essa agilidade. Primeiro, não fixar algoritmo no código das aplicações: a escolha vive em configuração ou em um serviço central, não espalhada por dezenas de repositórios. Segundo, centralizar a decisão criptográfica em um número pequeno de pontos — biblioteca comum, gateway, serviço de chaves — para que uma mudança tenha um lugar para acontecer. Terceiro, manter o inventário vivo, porque agilidade sem visibilidade é ilusão. Quarto, evitar dependência de biblioteca sem manutenção: um componente abandonado congela o algoritmo junto com ele.
O que exigir do fornecedor em contrato
Como a maior parte da criptografia de qualquer empresa é operada por terceiros, o instrumento decisivo é contratual, não técnico. Cinco exigências cobrem o essencial:
- Roadmap declarado por escrito de adoção de criptografia pós-quântica, com o que já foi entregue e o que está previsto — sem exigir data que o fornecedor não possa cumprir.
- Suporte a modo híbrido nos canais em que o serviço estabelece sessão cifrada com a empresa.
- Prazo de adoção compatível com o horizonte dos dados que aquele fornecedor protege.
- Direito de exigir atualização criptográfica dentro da vigência, sem custo de reimplantação — a cláusula que evita ficar preso a um algoritmo até o fim de um contrato longo.
- Transparência sobre o que é cifrado e com qual algoritmo, incluindo dado em trânsito, dado em repouso e gestão das chaves.
Essa exigência é um recorte específico do processo mais amplo de avaliação e monitoramento de fornecedores, tratado em Gestão de risco de terceiros (TPRM) na prática para a TI e em Como avaliar fornecedores de cloud e infraestrutura. Os pontos de contato com a operação de certificados e assinatura estão em ICP-Brasil e certificado digital: o que a TI precisa saber, Assinatura digital e assinatura eletrônica: diferenças e validade jurídica e VPN: tipos, usos e como implementar para acesso remoto.
Cinco erros que atrasam a migração
Os erros mais comuns não são técnicos — são de sequência e de expectativa. Vale nomeá-los antes de começar:
- Comprar solução antes de ter inventário. Sem saber o que se tem, não há o que priorizar nem como dimensionar a compra.
- Tentar trocar tudo de uma vez. A migração é faseada por natureza, e a fase híbrida existe justamente para permitir convivência.
- Substituir algoritmo por conta própria em sistema crítico sem suporte do fabricante, o que troca um risco futuro por uma indisponibilidade presente.
- Confundir PQC com criptografia quântica e orçar a infraestrutura errada.
- Tratar o tema como urgência genérica, sem triagem por longevidade do dado — o que produz muito movimento e nenhuma prioridade defensável.
Sinais de que sua empresa precisa inventariar a própria criptografia
Se você se reconhece em três ou mais cenários abaixo, o inventário criptográfico provavelmente é a próxima entrega — independentemente de qualquer discussão sobre computação quântica.
- Ninguém consegue dizer quantos certificados digitais a empresa tem e quando cada um expira
- Já houve indisponibilidade causada por certificado vencido que ninguém percebeu a tempo
- Não existe lista de quais sistemas usam qual algoritmo de criptografia
- Há dado que precisa permanecer confidencial por mais de dez anos trafegando por canal cifrado que ninguém revisou
- Sistemas críticos dependem de biblioteca criptográfica em versão sem suporte do fabricante
- Há dispositivos ou appliances no parque cuja criptografia não se atualiza por software
- Nenhum contrato com fornecedor de infraestrutura ou SaaS menciona atualização de algoritmo criptográfico
- A resposta interna sobre criptografia pós-quântica é que isso é problema para daqui a dez anos
Caminhos para inventariar e planejar a migração criptográfica
Há dois caminhos viáveis e eles costumam se combinar: o inventário inicial pode nascer internamente, enquanto ambientes com PKI própria, HSM ou parque embarcado tendem a exigir apoio externo.
Viável quando existe alguém com domínio de PKI e certificados, o parque é mapeável e a prioridade imediata é o inventário, não a migração.
- Perfil necessário: analista de infraestrutura ou de segurança com experiência em certificados, PKI e gestão de chaves
- Tempo estimado: algumas semanas para o inventário dos canais externos e certificados; meses para cobrir chaves, embarcados e fornecedores
- Faz sentido quando: o parque é predominantemente digital, sem PKI própria nem ativos embarcados relevantes
- Risco principal: o inventário virar documento estático e desatualizar, perdendo o valor operacional que justificou o esforço
Indicado quando há PKI própria, HSM, ativos embarcados, exigência de cliente ou de regulador, ou quando o inventário precisa ser feito em escala e de forma contínua.
- Tipo de fornecedor: Cibersegurança, Consultoria de TI, Infraestrutura e Cloud
- Vantagem: ferramental de descoberta, experiência com PKI e HSM e visão de como outros parques resolveram a mesma ordem de migração
- Faz sentido quando: há raiz de confiança própria, parque industrial ou exigência contratual de roadmap criptográfico
- Resultado típico: inventário criptográfico com dono por ativo, matriz de priorização e plano de migração faseado com orçamento
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Perguntas frequentes
O que é criptografia pós-quântica?
Criptografia pós-quântica (PQC) é o conjunto de algoritmos criptográficos projetados para resistir a ataques de computadores quânticos, mas que rodam em computadores convencionais. Ela substitui os algoritmos assimétricos usados hoje para troca de chaves e assinatura digital. Não se confunde com criptografia quântica (QKD), que depende de hardware óptico especializado e é outra tecnologia.
Quando o computador quântico vai quebrar a criptografia atual?
Não existe data conhecida, e este artigo não oferece uma. A decisão do gestor não depende dessa resposta: depende da longevidade do dado que a empresa protege e do prazo de vida da criptografia embutida nos seus ativos. A pergunta útil é que dado ainda terá valor daqui a dez ou quinze anos.
O que é harvest now, decrypt later?
É o modelo de ameaça em que tráfego cifrado é capturado e armazenado agora para ser decifrado no futuro, quando a capacidade computacional existir. Torna a exposição presente para quem transmite dado de vida longa — contrato de longo prazo, prontuário, segredo industrial, material criptográfico — porque a proteção vale apenas pelo tempo em que o algoritmo se sustentar.
Quais algoritmos o NIST padronizou para criptografia pós-quântica?
Segundo o NIST, em 2024, foram publicados em 13 de agosto os padrões FIPS 203 (ML-KEM, encapsulamento de chave), FIPS 204 (ML-DSA, assinatura digital) e FIPS 205 (SLH-DSA, assinatura baseada em hash). O algoritmo HQC foi selecionado para padronização em 11 de março de 2025, com o padrão correspondente em elaboração.
Como fazer um inventário criptográfico da empresa?
Levante oito frentes: canais externos (TLS de sites e APIs), certificados, acesso remoto e VPN, assinatura de código, documento e firmware, dados em repouso, chaves e cofres, criptografia embutida em dispositivos e legado, e o que os fornecedores cifram em nome da empresa. Para cada item registre algoritmo, onde está, prazo de vida do ativo e dono.
O que é agilidade criptográfica (crypto-agility)?
É a capacidade de trocar de algoritmo criptográfico sem reescrever sistema. Exige não fixar algoritmo no código das aplicações, centralizar a decisão criptográfica em poucos pontos, manter o inventário vivo e evitar dependência de bibliotecas sem manutenção. É a entrega mais perene do tema, porque vale para esta transição e para a próxima.
Fontes e referências
- National Institute of Standards and Technology (NIST). Post-Quantum Cryptography (project). NIST Computer Security Resource Center (CSRC).
- National Institute of Standards and Technology (NIST). NIST IR 8547 (initial public draft): Transition to Post-Quantum Cryptography Standards. 2024. NIST Publications.